O conto dos irmãos grimm
O conto do Flautista de Hamelin compilação dos Irmãos Grimm (publicado em 1816 na coletânea Deutsche Sagen, sob o número 245) resgata os elementos mais sombrios da tradição oral germânica. Diferente das adaptações infantis modernas, a narrativa dos Grimm é direta, melancólica e carrega um forte tom de crônica trágica, despida de finais felizes.
A Praga Subterrânea e o Pacto de Ouro
No ano de 1284, a pacata cidade de Hamelin, situada às margens do Rio Weser, foi assolada por uma infestação catastrófica de ratos e camundongos. Os roedores multiplicavam-se em progressão assustadora, e esses enormes números invadiam os celeiros, destruíram sacas de grãos, devoravam os queijos nas despensas, chegando até a morder os bebês em seus berços e os cidadãos enquanto dormiam, o pânico instalou-se e os governantes locais viram-se completamente impotentes. Foi então que, no dia de São João e São Paulo, um homem de aparência exótica cruzou os portões da cidade, ele vestia uma túnica longa feita de tecidos de várias cores vivas e costuradas entre si — razão pela qual foi apelidado de Buntetinger (o colorido). O desconhecido apresentou-se ao Magistrado de Hamelin alegando ser um caçador de ratos profissional e garantiu que, mediante o pagamento de uma generosa quantia em moedas de ouro, livraria a cidade de até o último roedor antes do anoitecer. Desesperados, o prefeito e os vereadores aceitaram prontamente o acordo, selando a promessa sob juramento.
O homem colorido retirou de sua algibeira uma pequena e modesta flauta de madeira parou no centro da praça do mercado e levou o instrumento aos lábios, assim que as primeiras notas ecoaram pelas ruas de pedra, um silêncio sepulcral cobriu Hamelin, quebrado logo em seguida por um sussurro coletivo vindo de todos os cantos. Debaixo dos assoalhos, de dentro dos celeiros, dos sótãos, das igrejas e das cozinhas, os ratos começaram a emergir em colônias intermináveis. Enfeitiçados pela melodia hipnótica, milhares de animais formaram uma gigantesca e ruidosa procissão viva que seguia os passos lentos do músico. O Flautista caminhou em direção aos limites da cidade, tocando sem interrupções. Ele conduziu a massa fervilhante de roedores até a margem do Rio Weser, e sem hesitar, o músico adentrou as águas correntes até os joelhos. Os ratos, completamente desprovidos de vontade própria e tomados pelo transe musical, atiraram-se nas águas caudalosas e morreram afogados. Em poucas horas, Hamelin estava limpa.
O Flautista caminhou em direção aos limites da cidade, tocando sem interrupções. Ele conduziu a massa fervilhante de roedores até a margem do Rio Weser, e sem hesitar, o músico adentrou as águas correntes até os joelhos. Os ratos, completamente desprovidos de vontade própria e tomados pelo transe musical, atiraram-se nas águas caudalosas e morreram afogados. Em poucas horas, Hamelin estava limpa. A euforia tomou conta da população, mas a gratidão dos homens de Hamelin durou pouco. Quando o Flautista retornou à prefeitura para reivindicar a recompensa acordada, deparou-se com a avareza dos governantes. Vendo que o perigo já havia passado e considerando o trabalho "fácil demais" por ter sido resolvido apenas com música, o Magistrado recusou-se a pagar o valor estipulado, oferecendo em troca uma única moeda. O Flautista, sentindo-se profundamente traído, não discutiu. Fitou os cidadãos com um olhar sombrio e proferindo uma terrível ameaça silenciosa abandonou a cidade jurando que eles pagariam muito caro por aquela desonra.
O Retorno e a Vingança Sombria
No dia 26 de junho, logo nas primeiras horas da manhã, o Flautista retornou. Enquanto a maioria dos adultos e pais de família estava reunida na igreja para o culto dominical, o homem colorido reapareceu nas ruas desertas, vestindo dessa vez um traje vermelho-sangue e um chapéu de formato peculiar e assustador. Ele levou novamente a flauta aos lábios, mas o som que ecoou pelas paredes de Hamelin não era o mesmo de antes. Era uma melodia belíssima, terna e celestial, que falava diretamente às almas puras. Imediatamente, todas as crianças de todas as idades saíram correndo de suas casas, rindo e dançando em transe. Totalizando 130 jovens, a marcha infantil seguiu o Flautista em direção à saída da cidade, sob os olhos atônitos de uma velha governanta e de algumas poucas testemunhas que nada puderam fazer para quebrar o encanto. O Flautista conduziu o cortejo de crianças para longe das muralhas, em direção à montanha de Poppenberg. À medida que se aproximavam do paredão de pedra, a rocha abriu-se milagrosamente, revelando uma imensa e escura caverna subterrânea. O músico adentrou a fenda, sendo seguido alegremente pelas 130 crianças. Assim que o último jovem cruzou o limiar, a montanha fechou-se com um estrondo violento, selando a entrada para sempre e engolindo-os no esquecimento.
Os Irmãos Grimm registraram que apenas duas crianças foram deixadas para trás por terem se atrasado na caminhada: uma delas era cega e não conseguia apontar o local exato onde a montanha havia se aberto; a outra era muda e não conseguia relatar o que tinha visto. Uma terceira criança, que saiu apenas de camisola e retornou no meio do caminho para buscar seu casaco, escapou por poucos segundos da tragédia, sendo a responsável por alertar os pais desesperados que saíam da igreja. Daquele dia em diante, o silêncio e o luto eterno caíram sobre Hamelin. A rua pela qual as crianças passaram rumo ao desaparecimento foi batizada de Bungelosenstrasse (a rua sem tambores), onde até os dias de hoje qualquer celebração musical é estritamente proibida por lei.